O Rebento e Seu Leito de Folhas (Contos de Taquiti 4)
Neste quarto capítulo dos Contos de Taquiti, Játáti se desespera quando houve seu filho recém-nascido falar línguas desconhecidas de seu povo. Acompanhe essa história e conheça o seu final surpreendente.
Caso deseje ler o primeiro capítulo antes de prosseguir nesta história, por favor clique aqui.
Bebê índio em seu leito de folhas na floresta (imagem criada pelo chatGPT)
A chuva incessante dos últimos dias vinha deixando Takwyiti melancólica. E as lembranças da vida sofrida de sua avó Játáti em nada contribuíam para melhorar seu humor. Agora, arrependia-se de ter começado a contar aquela história às crianças, mas elas estavam tão fascinadas pelo relato que dificilmente aceitariam uma historinha água com açúcar em seu lugar. Assim, naquela noite, quando as crianças se acomodaram na cama e pediram que Nhá Taquiti retomasse a narrativa de onde havia parado, ela não teve outro remédio senão prosseguir:
“As opiniões na aldeia estavam divididas. O pajé, contrariado com tantos rumores, insistia que não havia nada de extraordinário na criança que Játáti carregava no ventre. Afinal, os poderes sobrenaturais eram privilégio dos pajés, e não de crianças que sequer haviam nascido. As mulheres, entretanto, tinham outra opinião. Reunidas em pequenos grupos, cochichavam sem cessar sobre as misteriosas escapadas do filho de Játáti, que, segundo se dizia, abandonava o ventre da mãe, transformava-se em bicho e saía a passear pela mata, regressando apenas quando sentia vontade de dormir. E havia ainda aquela barriga, que crescia depressa demais, muito além do que as mulheres mais velhas consideravam normal...
Alheia às discussões que provocava, Játáti vivia atormentada pelo medo do desconhecido. Cada vez mais arredia, afastava-se das companheiras e passava longas horas sozinha em sua rede, entregue a crises de choro que nem ela própria sabia explicar. Mas o que mais a afligia não eram as estranhas transformações atribuídas ao filho, nem mesmo a possibilidade de estar gestando uma criatura diferente de todas as outras. Era o receio de que, ao nascer aquela criança assombrosa, ela e seu filho fossem excluídos do dia a dia da comunidade, que eles acabassem se tornando estrangeiros entre seu próprio povo. Tudo o que Játáti desejava era ter um filho comum, que pudesse crescer e brincar com as outras crianças da aldeia!
Por todos os lugares por onde andava, Játáti era seguida por Rorê, que se movia na copa das árvores, fora do alcance dos olhos dela. Ele via que ela estava aflita, mas não sabia a causa. Por isso, zelava pela sua segurança 24H por dia. Mas no dia em que ela resolveu fazer uma longa caminhada solitária em direção às margens do rio para espairecer, as coisas não saíram como o esperado. Depois de algumas horas perambulando pela mata, Játáti começou a sentir as dores do parto. Ela então preparou uma pilha de folhas secas sob a sombra de uma samaúma e se agachou de cócoras para dar à luz. Tão logo a criança nasceu, começou um berreiro infernal que fez com que a mata toda silenciasse a seu redor. Játáti então deitou-se sobre as folhas e fechou os olhos para descansar um pouco e acalmar seus nervos. Ela estava quase cochilando quando começou a ouvir vozes que falavam em uma língua desconhecida. Quando estas vozes se transformaram em sussurros, ela afinal saiu do torpor em que havia mergulhado, mas tudo o que viu foi seu filho deitado ao seu lado.
- O que os outros vão fazer quando descobrirem que dei à luz uma criança que fala uma língua que ninguém entende? Vou acabar sendo expulsa da aldeia! Como é que alguém sobrevive sozinha na mata? Seria o mesmo que ser abandonada no covil das onças... – ela berrava para os animais da mata, enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto.
Tomada de pânico, Játáti começou a cobrir o filho com as folhas do leito onde acabara de parir. Uma a uma, elas foram sendo amontadas sobre o corpo franzino do bebê, até que ele finalmente desaparecesse sob a folhagem. Mas isso ainda não era suficiente! Com as mãos tremendo e o coração disparado, ela continuou empilhando folhas, apertando-as com as mãos, aterrorizada com a possibilidade de que um som escapasse daquele pequeno monte e chegasse aos ouvidos de alguém.
Do alto da copa da samaúma, Rorê acompanhava tudo, agitando-se e soltando gritos estridentes. Quando Játáti percebeu que as folhas haviam parado de se mexer e que nenhum ruído escapava debaixo delas, ergueu-se e tomou o caminho de volta pra casa. Já havia percorrido metade do trajeto quando cruzou com um grupo de mulheres que corria aos gritos na direção contrária. Seguiam Rorê, que saltava de galho em galho, descendo de tempos em tempos para esperá-las, como se quisesse ter certeza de que não o perderiam de vista. Exausta demais para chamar pelas amigas e incapaz de compreender o que estava acontecendo, Játáti continuou a caminhar. Naquele momento, só desejava uma coisa: que o dia terminasse.”
- Nhá Taquiti, isso não é história pra criança. Eles vão acabar tendo pesadelos – disse a mãe de Clara e Mateus, que passava pela porta do quarto bem na hora em que Taquiti começara a contar sobre o parto e a crise de nervos de Játáti. - Eles ainda acreditam na cegonha! Agora vamos desligar a luz, que já passou da hora deles dormirem e você voltar para a aldeia.
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