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Se você se preocupa em saber quais histórias são verdadeiras e quais são ficção, lembre-se de que a história muda conforme aquele que a conta, pois todas elas sempre carregam algo de verdadeiro e muito da fantasia do escritor. Afinal, neste mundo das redes sociais, mesmo quando pretendemos estar contando a verdade sobre nós, redigimos uma ficção.

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Játáti e o Órfao da Floresta (contos de Taquiti 1)

Essa história se inspira livremente na lenda de Awkê – o menino que morreu para se tornar o homem branco. Ela se passa na década de 1930, quando ocorreram os primeiros contatos dos índios Timbira do povo Gavião Parkatêjê (da região do médio Rio Tocantins, no Pará) com o homem branco.

 

ilustração de chatGPT

— Agora fica tudo quietinho, que já é hora de dormi. Fecha os óio e escuta as avi lá fora. Cada piado que ouvi, vai contano. Quero ver quem conta mais! 

- Ah, Nhá Taquiti, conta mais uma vez a história da Játáti. Faz tempo que tu não contas a vida da tua vó quando ela ainda era pequena – disse a menina Clara, enquanto a índia velha acomodava as duas crianças sob os lençóis de linho e abria a janela do quarto para entrar o ar fresco da noite que vinha lá dos lados do Rio Tocantins. Takwyiti era uma índia Timbira que havia se tornado empregada doméstica dos pais de Clara e Mateus logo que eles se mudaram para o vilarejo onde viviam os beneficiadores de castanha-do-pará na década de 1980. Desde que Clara e seu irmão gêmeo nasceram, ela havia se tornado sua babá e amava aquelas crianças como se fossem seus filhos.

- Ta bom, tá bom – ela disse, e se pôs a narrar a infância de sua avó:

“Játáti era uma garota de corpo miúdo e ágil, pele acobreada, com uma cabeleira castanho escuro longa e lisa, e um par de bochechas coradas. Ela não parava quieta, correndo descalça pelos caminhos da aldeia e pelas trilhas que conduziam aos igarapés. Mesmo vestida apenas com um cinto de fibras de tucum, onde haviam pendurado algumas folhas verdes para formar uma saia fofa, seus cabelos viviam empapados de suor devido ao calor úmido que emanava da mata amazônica e às correrias incessantes com as crianças da tribo.

Por entre as mechas lustrosas do seu cabelo, que cheirava à mato verde e à água fresca do rio, com frequência era possível ver um par de olhinhos brilhantes e duas mãozinhas escuras, com dedinhos perfeitos iguais aos de vocês. Quem era, hem, meus -kra?”

- Rore, o macaquinho – gritaram em uníssono as duas crianças, batendo as palmas das mãos animadamente.

“Quando Játáti tinha sete anos, seu pai lhe trouxe de presente um filhote de macaco, que havia acabado de ficar orfão. A mãe dele fora morta com uma flechada certeira durante uma caçada e agora vinha carregada sobre os ombros do índio, que sorria para a filha orgulhoso de seu feito. Quando Játáti segurou pela primeira vez aquele macaquinho minúsculo em seus braços, ela ficou tão entusiasmada que mal reparou na festa que os demais índios fizeram para comemorar o sucesso da caçada e a partilha da carne assada. A partir daquele dia, Játáti e Rore não desgrudaram mais um do outro. 

Játáti levou à sério a tarefa de cuidar do órfãozinho, e em pouco tempo ela já tinha aprendido a lhe alimentar, manter seu corpo aquecido e reconhecer seus gritinhos de fome e desconforto. Ele passava o dia inteiro agarrado ao corpo dela ou aos seus cabelos, e à noite dormiam juntos na mesma rede. Eles só se separavam quando o macaco corria para mamar nos seios de outra índia, que havia acabado de dar à luz. Enquanto mamava, o danado observava atentamente o recém-nascido de quem roubara o seio e os cuidados que ele recebia das outras mulheres. Bem alimentado e tratado com carinho pelas mulheres, Rore cresceu rápido e cheio de saúde, sendo considerado um integrante da tribo pelos demais índios.

Játáti era famosa na tribo por ser uma menina curiosa que gostava de seguir as mulheres até o roçado na época da colheita das batas-doce. Isso não era à toa, pois uma das coisas que ela mais amava neste mundo era batata-doce cozida, principalmente as maiores e mais amarelinhas. Estas eram suas, e ponto-final. Embora Rore estivesse acostumado a receber algum alimento toda vez que estendia a mão para ela, ele sabia muito bem quando não valia à pena insistir. Nas ocasiões em que Játáti comia batata-doce, ele virava as costas para ela, gritando a plenos pulmões, contrariado.

Até então, os índios do povo Gavião Parkatêjê jamais haviam tido contato com os brancos. A vida dos índios na aldeia Timbira era simples, mas cheia de liberdade. Os dias passavam lentamente entre os cuidados com a roça e as crianças, colheita de castanhas e frutos, a preparação da comida e a fazedura de cestos. As crianças corriam livremente pelas casas de palha para dispostas em torno de um pátio central, de terra batida. Não havia paredes, riquezas ou desigualdades. Aos homens cabiam as caçadas e as eventuais lutas por território com índios das aldeias rivais.

Porém no início da década de 1930, comerciantes, barqueiros e trabalhadores vieram do Maranhão atraídos pela coleta da castanha-do-pará e se instalaram na região do médio rio Tocantins, próximo a seus afluentes. Inicialmente, eles permaneceram acampados próximos às margens do rio, distantes das aldeias indígenas, que ficavam mais afastadas, dentro da mata. Mas à medida que a extração das castanhas avançava, eles foram invadindo a mata.”

- Foi quando nasceu o menino Awkê? – perguntou Mateus, esfregando os olhos de sono, mas estendendo ao máximo o prazer de ouvir Nhá Tiquiti contar as histórias de sua tribo.

- Na na ni na não. O nascimento do menino Awkê fica para amanhã. Agora é hora de apagar a luz e dormir.

Se você quer ler a continuidade desta história, clique aqui (aguarde a publicação).

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Tags: índios Timbirapovo Gavião ParkatêjêAwkê

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