Como nasce um ditador?
Não estou falando aqui de um parto longo e insuportavelmente doloroso, mas sim de sua família. Será possível que um ditador possa nascer de uma família normal, tipo uma maçã podre no cesto? Ou ele deve ter um histórico familiar diferente da maioria das pessoas? Família com certeza não é tudo na definição do caráter de uma pessoa, mas influencia muito, não é mesmo? A análise da linhagem de Hitler mostra como uma família com histórico de violência excessiva pode ter resultados catastróficos para a sociedade.
A versão do histórico familiar de Adolf Hitler considerada atualmente como a mais confiável, desde a questão da identidade obscura de seu avô até a juventude rebelde e perdulária de Adolf em Viena está resumida abaixo. Mas se você não é do tipo que gosta dos “entretantos” e prefere ir direto aos “finalmentes”, vá para a seção denominada "Uma infância marcada por extrema violência".
.
Tres fases na vida de Hitler, tendo como pano de fundo sua certidão de nascimento
As raízes do trauma: ilegitimidade, violência e mulheres sem voz
A história se inicia com a morte de Martin Hiedler, em 1829, quando seus dois filhos tiveram de decidir o que fariam com a fazenda modesta em que viviam na região de Waldviertel, na Áustria. Naquela época era costume deixar toda a herança para o filho mais velho, de modo a impedir a falência das pequenas propriedades rurais. Contudo, Johann Georg, o filho mais velho, optou por trabalhar como moleiro e adotar um estilo de vida itinerante, deixando para seu irmão mais novo, Johann Nepomuk, a posse da fazenda e a função de administrá-la. Poucos meses mais tarde, Nepomuk se casaria com Eva Maria Decker, uma mulher 14 anos mais velha que pertencia a uma família de agricultores bem estabelecidos na vila de Thaures. Com o dote e os recursos trazidos por ela, Johann Nepomuk pode investir em melhorias na sua fazenda e adquirir lotes vizinhos, tornando-se com o tempo um fazendeiro próspero e respeitado
Nos anos que se seguiram, o casal teve três filhas mulheres: Johanna, Walburga e Josefa. As meninas ainda eram pequenas quando Johann Nepomuk teve uma relação extraconjugal com Maria Anna Schicklgruber, uma camponesa que trabalhava como criada itinerante, auxiliando nas tarefas domésticas das fazendas da região. Desta relação nasceu um filho, Alois, que foi registrado apenas com o sobrenome de sua mãe, de modo a proteger a reputação e o casamento do pai. Sem ter condições de oferecer um lar para seu filho, Maria Anna e Alois foram acolhidos por uma família de camponeses que viviam nas proximidades, os Trummelschlager, com quem viveram durante os primeiros anos de vida de Alois.
Quando Alois fez cinco anos, sua mãe casou-se com Johann Georg, o irmão mais velho de Johann Nepomuk. No entanto, Georg era um homem sem ambição, egoísta e de mau gênio, que logo se desfez da presença do seu enteado em casa, enviando o menino para viver na fazenda de seu pai. Assim, aos dez anos ele começava a trabalhar como criado em troca de educação e moradia. Aos 13 anos ele já estava cansado do trabalho braçal na fazenda, e resolveu partir para Viena onde trabalharia como aprendiz de sapateiro. Contudo Alois era um rapaz esperto e ainda jovem se tornaria funcionário público do Serviço Imperial da Alfândega Austríaca, sendo alçado ao status de classe média.
Em 1873, Alois casou-se por puro interesse com Anna Glassl, 14 anos mais velha, doente e incapaz de lhe dar filhos, porém da classe alta. Como o pai adotivo de Anna era um funcionário com excelentes conexões na Alfândega da Áustria, ele proporcionou a Alois o contato com pessoas influentes no funcionalismo público, garantindo promoções e o respeito de seus superiores durante a carreira. Contudo, os repetidos casos extraconjugais de Alois resultariam na separação de Alois e Anna sete anos mais tarde.
Em seguida, Alois oficializou a relação que mantinha com Franziska Matzelsberger, a empregada doméstica da hospedaria onde ele morou no tempo de solteiro. Com essa esposa ele teve dois filhos, Alois e Angela Hitler. Porém este casamento duraria apenas dois anos, pois Franziska morreu de tuberculose logo após o nascimento do segundo filho.
A mulher que se tornaria a terceira esposa de Alois era sua prima Klara Pölzl, trazida para Viena para trabalhar como empregada doméstica e cuidar dos filhos de Alois e Franziska. Logo após enviuvar, Alois resolveu legalizar a situação com sua prima Klara, porém, como eles eram parentes consanguíneos, tiveram de conseguir dispensa papal para que seu casamento fosse autorizado por lei. Mesmo casada, Klara continuaria chamando o marido de “tio Alois” por muitos anos. Deste casamento nasceram 6 crianças das quais quatro filhos morreram de causas variadas, sobrevivendo apenas Adolf Hitler e sua irmã Paula.
Durante toda sua vida, Alois e Johann Nepomuk mantiveram um vínculo ativo apesar da distância, havendo registros de que Nepomuk tinha um imenso orgulho do sucesso alcançado por seu filho. Contudo, Nepomuk não tinha filhos homem legítimo nem sobrinhos, o que ameaçava a integridade do patrimônio amealhado por ele e a continuidade do sobrenome Hiedler. Por isso, quando Alois tinha 39 anos, seu pai o ajudou a mudar legalmente seu sobrenome para Hitler, uma variação fonética de Hiedler valendo-se de uma artimanha. Embora o padrasto de Alois já tivesse falecido, ele foi registrado como sendo seu verdadeiro pai, com base nas declarações de três testemunhas que se apresentaram em cartório. Desse modo, Alois deixava de ser filho ilegítimo. Além disso, quando Nepomuk finalmente morreu, a maior parte de sua fortuna foi deixada para Alois Hitler, seu principal herdeiro financeiro.
Uma infância marcada por extrema violência
Apesar do seu padrão de vida confortável e do afeto demonstrado por Nepomuk, Alois tornou-se alcoólatra, frio e autoritário, além de extremamente violento com seus filhos e mulher. O comportamento de Alois ultrapassava os limites de violência doméstica aceitos na época. A irmã de Adolf posteriormente relataria que ele costumava ser espancado com chicotes de couro, cintos e varas de madeira, e que certa vez a surra foi tão brutal que Adolf perdeu os sentidos e ficou de cama por vários dias, à beira da morte. No dia em que ele declarou ao pai que sonhava em ser artista, Alois o ridicularizou publicamente e passou a exigir que ele seguisse a carreira de funcionário público. O histórico de violência doméstica severa destruiu a saúde mental de toda a família.
Embora Adolf Hitler tivesse apenas 14 anos quando seu pai morreu em 1903, ele assumiu o posto de chefe de família e deu continuidade ao comportamento agressivo de seu pai, sob o pretexto de manter a irmã na linha. Quatro anos mais tarde, quando Adolf tinha 18 anos, sua mãe faleceu em decorrência de um câncer de mama agressivo. Durante os últimos meses de vida de Klara, ela foi cuidada de modo obsessivo por seu filho, que aplicava ele mesmo os curativos na mãe. O médico que a atendeu em seu leito de morte, relatou que Adolf teve uma reação tão violenta e desesperada, como jamais havia visto em 40 anos de carreira. Essa reação foi atribuída ao fato de que a mãe fora seu único porto seguro durante a infância, protegendo-o sempre que possível da violência paterna. Após a perda de sua mãe, ele decidiu cortar os laços com sua cidade natal e mudar-se para Viena, onde passou a se dedicar à carreira de pintor.
O Dândi de Viena
Apesar do mito criado por Adolf em seu livro Mein Kampf de que ele era um artista miserável que perambulava pelas ruas de Viena, Hitler recebeu de seu pai uma herança considerável. Porém como ele era muito jovem, o montante ficou retido até que ele completasse a maioridade, aos 24 anos. Neste meio tempo, ele e sua irmã receberam do governo uma pensão mensal de órfão, além de 2000 coroas relativas aos bens deixados por sua mãe e um empréstimo generoso de sua tia Johanna para financiar seus estudos.
O dinheiro recebido permitiria a Adolf ter uma vida estudantil confortável. Contudo, ele optou por um estilo de vida dispendioso, alugando quartos caros para morar, comprando roupas de alta qualidade e frequentando a ópera constantemente. Deste modo, o dinheiro se esgotou em menos de dois anos. Como ele se negava a procurar um emprego formal, considerado por ele indigno, Hitler acabou sendo despejado de seu quarto por inadimplência, indo morar em asilos de mendigos. Foi nesta fase que ele passou a pintar cartões-postais e aquarelas baratas para sobreviver. Porém, assim que Adolf colocou as mãos no dinheiro do pai, ele se mudou para Munique e se declarou apátrida no intuito de escapar do alistamento militar obrigatório. Adolf detestava o Exército Austro-Húngaro devido à mistura de etnias alemãs, húngaras, eslavas, checas, poloneses, italianas e judias, que, segundo ele, tornavam o Império Austro-Húngaro decadente e enfraquecido pela sua diversidade.
Uma vez instalado em Munique ele voltou a viver acima dos seus recursos até que sua herança se esgotou novamente. Porém, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, ele se alistou voluntariamente no Exército Bávaro (alemão), considerado por ele o verdadeiro símbolo da força, da pureza e do poder germânico. A adesão de Hitler ao militarismo prussiano/germânico lhe conferiu estabilidade financeira e um propósito de vida.
O Despertar do Ditador
Por conta da violência paterna, Adolf havia desenvolvido nos seus primeiros anos de vida um profundo ressentimento das autoridades tradicionais. Além disso, ele era incapaz de estabelecer vínculos afetivos, apresentando um comportamento isolado e fantasioso. O alistamento no exército trouxe, porém, uma solução para os traumas provocados pela violência extrema de seu pai: a disciplina militar substituiu a tirania paterna; a violência da guerra funcionou como um canal legítimo para extravasar a raiva reprimida em sua infância; e de vítima de seu pai ele passou a agente da violência.
Estudiosos do nazismo dizem que “Ao criar o ideal nazista e, posteriormente, assumir o papel de Führer, Hitler projetou na Alemanha a exata estrutura da família de sua infância: um líder patriarcal inquestionável que pune severamente qualquer desobediência e exige submissão total de seus "filhos".
Voltar