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Se você se preocupa em saber quais histórias são verdadeiras e quais são ficção, lembre-se de que a história muda conforme aquele que a conta, pois todas elas sempre carregam algo de verdadeiro e muito da fantasia do escritor. Afinal, neste mundo das redes sociais, mesmo quando pretendemos estar contando a verdade sobre nós, redigimos uma ficção.

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Você confia cegamente em seu médico?

Você é do tipo que confia e segue fielmente as indicações do seu médico, ou pesquisa sobre todos os seus sintomas na internet antes de cada consulta e discute com ele cada uma das opções de tratamento?

Imagem gerada pelo Bing Image Creator

 

Embora o conhecimento geral das pessoas tenha evoluído nas últimas décadas com o amplo acesso de todos às informações sobre doenças e remédios disponibilizadas na internet, ainda persiste em parte da nossa sociedade um certo endeusamento dos médicos. Mas como saber quais conselhos do seu médico devem ser seguidos quando se tem em mente que a medicina é tão sujeita a modismos, como boa parte das profissões que conhecemos? E o que dizer da relação capciosa entre representantes farmacêuticos e médicos que promete ganhos econômicos e vantagens aos médicos que receitem medicações ainda pouco testadas e de alto custo?

O complexo de Deus dos médicos é uma construção histórica, psicológica e cultural profunda que tem forte influência na relação médico -paciente. As razões desta idealização são várias: o monopólio sobre a vida e a dor; a assimetria de informação; a ostentação de símbolos de status, poder e pureza; e o paternalismo médico.

O ser humano tem um medo ancestral da doença e da morte. Por isso, os pacientes e suas famílias tendem a projetar no médico uma capacidade quase infalível em momentos de extrema vulnerabilidade de modo a melhor superar seu medo. O médico passa então a ser considerado como o salvador e a ele são delegadas todas as decisões quanto ao melhor tratamento a ser adotado. Mas então por que são entregues documentos transferindo a responsabilidade legal das decisões aos pacientes ou seus responsáveis antes da realização de procedimentos de alto risco justamente nestas horas tão difíceis?

Contribuem para a tendência ao endeusamento dos médicos o uso de um jargão carregado de termos em latim; o fato de que seu conhecimento estava até recentemente restrito aos livros de medicina e aos cursos universitários; e a cultura histórica de uma postura de obediência cega dos pacientes que tornava extremamente malvisto o questionamento da decisão ou da conduta dos médicos. O extremo corporativismo ainda observado nos dias de hoje na comunidade médica é uma consequência destes fatos.

No entanto, quando se analisa a evolução dos tratamentos médicos adotados ao longo dos tempos para algumas enfermidades, observa-se a sucessão de modismos, que sugerem a realização de diagnósticos equivocados ou superficiais de uma parcela considerável dos pacientes. Sim, a medicina também segue modismos. Este é o caso por exemplo da ampla indicação para extração de amigdalas para casos de infecção de repetição nos anos 1970 e 1980. Esta cirurgia era quase um rito de passagem entre as crianças, que aguardavam ansiosas pelo consumo indiscriminado de sorvete para aplacar o incômodo pós-cirúrgico. Hoje, esta cirurgia é o último recurso, sendo preferível preservar estes órgãos de defesa essenciais do sistema imunológico.

Outros casos bem conhecidos de modismos na medicina são o uso de botas ortopédicas de couro duro e metal em crianças de 2 ou 3 anos, a extração preventiva dos quatro dentes do siso de adolescentes para impedir que eles empurrassem os demais, as inúmeras variações ao longo dos últimos anos dos valores de pressão sanguínea e de colesterol considerados limítrofes, a condenação do consumo de ovos e o estímulo ao consumo de margarina, a opção por colocar os bebês para dormir de bruços como forma de evitar o sufocamento por refluxo, a lobotomia como técnica amplamente utilizada no tratamento de transtornos psiquiátricos, tendo inclusive sendo premiada com o Nobel. Todos esses modismos foram questionados e abandonados pela comunidade médica com o tempo.

Finalmente, o que dizer da relação entre a indústria farmacêutica e os médicos? Estratégias agressivas de marketing dirigidas aos profissionais de saúde resultam na prescrição rotineira de suplementos alimentares, complexos vitamínicos e alguns exames laboratoriais cujo uso não está embasado pela ciência, pois os estudos demonstram pouca ou nenhuma eficácia dos mesmos, os quais são facilmente substituíveis por alternativas mais baratas.

 O mesmo pode ser dito sobre a indicação de remédios de última geração com melhorias marginais ou nulas quando comparados aos medicamentos genéricos já consolidados no mercado e muito mais baratos. Também a adoção de check-ups anuais absurdamente extensos sob o lema de “quem previne, cuida” pode resultar em falsos positivos, exposição excessiva dos pacientes à radiação em exames de imagem, e biópsias invasivas ou arriscadas solicitadas com base em variações estatísticas normais de exames de sangue.

Considerando todos estes fatos acima, nós, como pacientes, temos dois caminhos diferentes para tomar, dependendo do perfil de cada um. Aqueles que gostam de se envolver profundamente em todos os assuntos que se referem a sua saúde e modo de vida, podem se dedicar a estudar com a maior profundidade possível as doenças diagnosticadas pelos seus médicos e as alternativas de tratamento possíveis para que as decisões tomadas sejam compatíveis com o perfil do paciente. Já aqueles que preferem delegar as decisões e responsabilidades de sua vida à terceiros devem seguir com zelo as recomendações médicas, sem dar atenção aos influenciadores digitais nem aos conselhos de amigos ou parentes “bem-intencionados”.

E você, qual é o seu tipo de paciente?

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