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Quando a chama se apaga

Ela vivia tão preocupada com a vida do casal do andar acima, que nunca percebeu o que se passava em sua própria casa.

Mulher joga as roupas de seu marido pela janela em um acesso de ódio (by chatGPT) 

 Não conhecia meus vizinhos de cima. Nunca os tinha visto. Mas conhecia intimamente seus hábitos.

Depois de tantos anos morando no andar de baixo, já sabia identificar os sinais de que uma nova crise na relação se aproximava. Primeiro, os passos da mulher se tornavam mais pesados; seu sono, mais curto; e a limpeza da casa começava antes mesmo de o dia clarear. Ouvia então os móveis sendo arrastados de um lado para outro, como se nenhum lugar fosse suficientemente bom para eles. As tarefas cotidianas pareciam se transformar em um estorvo insuportável, executadas mecanicamente, sem atenção. Mil objetos escapavam de suas mãos, e o impacto deles no chão me fazia sobressaltar.

Naqueles períodos, a crise do casal de cima se tornava palpável e sinistra, como uma bolha de sabão gigantesca vagando pelo ar, prestes a estourar. Até que, em alguma madrugada, eu finalmente escutava:

— Cala a boca, senão eu te mato!

Depois de cada explosão, seguia-se um período de calmaria.

Mas naquela terça-feira as coisas foram diferentes.

Deitado na cama ao meu lado, meu marido se revirava, insone, aparentemente angustiado com a briga no apartamento de cima. Estranho, pois os nossos problemas nunca parecem afetar o sono dele, pensei, enquanto permanecia imóvel para que não percebesse que eu estava acordada.

Além do espanto, sua insônia despertava em mim uma inesperada onda de admiração. Finalmente, eu era capaz de identificar nele um vestígio de solidariedade diante do sofrimento de outro ser humano. Logo ele, sempre tão contido!

Naquela noite, como em todas as outras em que o casal brigava, acompanhei, tensa e muda, o bate-boca entre os dois. Ao final da discussão, a vizinha foi calada pelo marido e submetida ao sexo como a um castigo.

Porém, daquela vez, quando as molas da cama do casal começaram a ranger freneticamente, meu marido desistiu de conciliar o sono. Levantou-se e foi preparar o café da manhã. Aos primeiros raios de luz, saiu de casa silenciosamente, como um bandido em fuga.

Quando ouvi a porta se fechar com cuidado, enfiei o rosto no travesseiro úmido e murmurei entre os dentes:

— Há dias em que eu gostaria que fôssemos como o casal do andar de cima!

Como assim?, perguntei a mim mesma, erguendo subitamente o rosto, espantada com o absurdo que acabara de dizer.

Depois de alguns instantes refletindo sobre a questão, percebi que, embora a vida deles parecesse infernal, ao menos era feita de altos e baixos. Enquanto a nossa era como uma planície estéril...

Nós dois pertencemos àquele grupo de almas domesticadas, incapazes de dar vazão aos próprios sentimentos. Diante dos conflitos, permanecemos silenciosos e nos afastamos um do outro com elegância. Há anos dançamos esse pas de deux, cada vez mais distantes.

Quase não nos vemos mais. Quando ele chega em casa, já estou dormindo. Quando reclamo, ele não escuta. Quando ele se exalta, viro as costas, indiferente.

Com o tempo, acabamos ingressando no seleto grupo dos casais que nunca brigam.

— Que inveja! — dizem os amigos mais próximos.

Mas eles nada sabem. No nosso caso, a ausência de brigas não é sinal de afinidade, mas de covardia. Medo de encarar de frente o fracasso da nossa relação.

Na manhã seguinte à briga do casal, levantei-me com um humor sombrio. As disputas dos vizinhos de cima sempre provocavam em mim uma espécie de ressaca emocional. Em dias assim, costumava acalmar os nervos passando roupa. Quanto maior a pilha, maior o efeito sedativo.

O movimento de vaivém do ferro, o chiado do vapor saindo sob pressão, o calor que emanava dos tecidos: tudo isso, em conjunto, produzia em mim o efeito de uma sessão de meditação.

Naquela manhã, enquanto guardava no armário as roupas recém-passadas, percebi que as peças prediletas de meu marido haviam desaparecido. Todas. De uma só vez.

Restavam apenas alguns pijamas velhos, umas calças jeans fora de moda e a camisa social que eu lhe dera no último Natal e que ele nunca havia usado.

Achei aquilo estranho, pois ele quase nunca se dava ao trabalho de levar as próprias roupas à lavanderia.

Na hora do almoço, reapareceu, pontual como sempre. Estava de bom humor. Disse que a comida estava deliciosa e que eu era uma excelente dona de casa.

Que bicho será que mordeu esse homem?, pensei, de boca aberta, enquanto ele me cobria de elogios.

Pouco antes de voltar ao trabalho, avisou que precisaria viajar para São Paulo. Uma viagem a trabalho, de dois ou três dias. Não sabia ao certo.

Saiu levando uma malinha pequena.

Ao passar pela porta, deu-me um beijo na testa. Comovida com aquele gesto de afeto tão raro, decidi esperar a chegada do elevador para vê-lo partir.

Sentia renascer em mim a esperança de uma reaproximação. Afinal, sempre vale a pena lutar para manter acesa a chama de um casamento de tantos anos, não é mesmo?

O elevador demorou um pouco mais do que o habitual. Subiu até o último andar do prédio e, em seguida, fez uma breve parada no andar acima do nosso, para que outro passageiro pudesse embarcar.

Ouvimos as rodas de uma mala se prendendo ao trilho da porta e dificultando seu fechamento.

Quando o elevador finalmente chegou ao nosso andar, vimos uma bela mulher loura. Seus olhos vagaram entre mim e meu marido antes que ela se decidisse a cumprimentá-lo.

— Tudo bem, João Cláudio?

Ele balbuciou uma resposta inaudível e entrou no elevador de cabeça baixa.

Ai, como esse meu marido é tímido! Devia ao menos cumprimentar nossa vizinha com um pouco de educação!, pensei, observando a cena com um olhar enternecido.

Foi então que percebi que havia algo estranho.

Quem é ela?

Meu marido, ao se dar conta de que eu impedia o fechamento da porta, aguardando algum esclarecimento, olhou-me acuado e respondeu:

— Esta é Sueli, nossa vizinha do andar de cima.

— Ahhh! — respondi, liberando a passagem.

Enquanto as portas se fechavam, dirigi um breve sorriso cúmplice àquela alma sofredora do andar de cima.

Questão de sororidade, se você me entende.

Três dias mais tarde, enquanto limpava com afinco os vidros da sala, preparando o apartamento para o retorno de meu marido, que tardava a voltar de viagem, escutei uma gritaria vinda do térreo.

Espichei a cabeça para fora da janela e vi um grupo de vizinhos agitado em torno de uma pessoa caída no chão. Enquanto alguns gritavam por ajuda, outros tentavam fazer uma massagem cardíaca.

Larguei tudo o que estava fazendo e desci apressada para o pátio do edifício.

— O que aconteceu? — perguntei a uma vizinha que conhecia havia muitos anos, enquanto acompanhava os esforços da síndica, enfermeira do SAMU, para reanimar um homem de meia-idade, terrivelmente machucado.

— Ele pulou lá do décimo andar — respondeu ela.

— Do décimo? — repeti, com a voz subitamente aguda e o interesse redobrado.

— Sim. É o Marcos, teu vizinho de cima. Deve ter sido um ato de desespero. Parece que a mulher abandonou ele e fugiu com outro cara.

Saí dali correndo, aos prantos. Os demais me olharam sem entender nada.

Assim que entrei em casa, perdi completamente o controle.

— João Cláudio, seu covarde filho da puta! — gritei a plenos pulmões.

Abri a janela do quarto e lancei por ela todas as roupas e sapatos dele que ainda restavam no armário. Em seguida, voaram suas coleções de latinhas de cerveja, as fotografias do casamento, os mil apetrechos para fazer a barba, os perfumes e até as roupas de inverno, embaladas com bolinhas de naftalina e esquecidas na prateleira mais alta do guarda-roupa.

— Que absurdo! Podia ao menos dar essas roupas para os desabrigados da enchente! — gritou uma vizinha do condomínio em frente, antes de fechar a janela e voltar sua atenção para a série coreana a que estava assistindo.

 


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