O Risco da Estupidez
A teoria de Bonhoeffer sobre a Estupidez se aplica muito bem ao momento que estamos vivendo porque ela não identifica a estupidez com um partido ou uma corrente política específica. O mecanismo descrito — submissão ao grupo, repetição de slogans e resistência aos fatos — pode ocorrer em qualquer campo ideológico. Isso deixa a crítica social elaborada por ele muito mais interessante.

Bohoeffer e o risco de a estupidez dos indivíduos conduzir a um regime autoritário que cerceia as liberdades individuais (Imagem gerada pelo chatGPT)
É reconfortante pensar que o grande perigo da humanidade são os homens maus. Afinal, o mal costuma deixar pistas. O sujeito conspira, mente, rouba, oprime, persegue e, com alguma sorte, acaba sendo descoberto. Podemos denunciá-lo, julgá-lo, prendê-lo ou simplesmente atravessar a rua quando o vemos chegando.
O problema começa quando descobrimos que talvez exista alguém mais perigoso do que ele: o estúpido.
Quem chegou a essa conclusão não foi nenhum humorista particularmente mal-humorado, mas Dietrich Bonhoeffer, teólogo alemão que viveu os anos de ascensão do nazismo, participou da resistência contra Hitler, foi preso e acabou executado em 1945.
Observando o que acontecia ao seu redor, Bonhoeffer escreveu uma frase perturbadora: “A estupidez é um inimigo do bem mais perigoso que a maldade.”
Antes que alguém se ofenda, é preciso esclarecer que Bonhoeffer não estava falando do sujeito que não sabe resolver uma equação, confunde a capital da Suécia ou jamais entendeu para que serve uma raiz quadrada. Pelo contrário: ele dizia que existem pessoas intelectualmente brilhantes que são estúpidas e pessoas intelectualmente limitadas que não o são. Para ele, a estupidez não era propriamente um defeito da inteligência, mas uma condição humana produzida, em grande parte, pelas circunstâncias sociais.
E isso torna a questão muito mais interessante — e muito mais assustadora.
Podemos resumir o indivíduo estúpido descrito por Bonhoeffer por três características.
A primeira é a perda da independência de pensamento.
O estúpido não necessariamente pensa errado. O problema é mais grave: pouco a pouco, deixa de pensar por conta própria. Alguém pensa por ele. Pode ser um líder, um partido, uma igreja, uma ideologia, um grupo de amigos ou, transportando Bonhoeffer para o século XXI, aquela simpática multidão instalada dentro do seu celular.
As opiniões chegam prontas.
Basta escolher o pacote.
O indivíduo passa então a repetir frases, palavras de ordem e explicações que parecem suas, mas que foram produzidas em outro lugar. Bonhoeffer observava que, ao conversar com alguém nesse estado, temos a estranha impressão de não estarmos falando propriamente com uma pessoa, mas com slogans e palavras de ordem que tomaram conta dela.
Qualquer pessoa que já tenha cometido a imprudência de discutir política numa rede social talvez reconheça o fenômeno.
A segunda característica é a submissão ao grupo e ao poder.
Bonhoeffer percebeu algo fundamental durante a ascensão do nazismo: a estupidez não cresce necessariamente na solidão. Ela floresce extraordinariamente bem em multidões. Quanto maior a expansão do poder político ou religioso, observava ele, maior a possibilidade de que muitas pessoas abandonem sua independência interior. Daí sua conclusão devastadora: o poder de uns necessita da estupidez de outros.
A Alemanha nazista oferece um exemplo extremo.
É confortável imaginar que milhões de alemães acordaram certa manhã transformados em monstros. A realidade é muito mais incômoda. O regime nazista contou também com professores, médicos, funcionários, comerciantes, militares, engenheiros, intelectuais e cidadãos perfeitamente comuns. Pessoas capazes de administrar empresas, ensinar literatura, construir pontes ou diagnosticar doenças podiam, simultaneamente, aceitar ideias moralmente monstruosas.
Não porque fossem incapazes de raciocinar.
Mas porque, em determinadas questões, haviam permitido que outros raciocinassem por elas.
O Estado dizia quem era o inimigo. A propaganda explicava por que ele era perigoso. A multidão confirmava que aquilo era verdade. E cada pessoa encontrava ao redor milhares de outras pessoas aparentemente convencidas da mesma coisa.
Deve ser verdade, afinal todo mundo está dizendo.
Talvez poucas frases tenham causado tantos estragos na história.
É assim que chegamos à terceira característica da estupidez bonhoefferiana: a resistência aos fatos.
O indivíduo dominado por esse mecanismo não modifica sua opinião quando os fatos a contradizem. Faz exatamente o contrário: modifica a importância dos fatos.
Se uma informação confirma aquilo em que acredita, é prova definitiva.
Se contradiz, provavelmente é mentira.
Se a evidência se torna incontestável, trata-se apenas de uma exceção sem importância.
Bonhoeffer percebeu essa extraordinária capacidade de defesa intelectual. Razões caem em ouvidos surdos; fatos contrários ao julgamento prévio simplesmente deixam de ser acreditados e, quando não podem ser negados, são descartados como irrelevantes.
Quase oitenta anos depois, inventamos instrumentos capazes de realizar esse processo numa escala que Bonhoeffer dificilmente poderia imaginar.
Carregamos no bolso máquinas capazes de nos oferecer, durante vinte e quatro horas por dia, pessoas que concordam conosco.
Gostamos de determinada opinião?
Recebemos outra parecida.
Assistimos a um vídeo?
Aparecem cinco semelhantes.
Indignamo-nos com alguma coisa?
Excelente. A indignação prende nossa atenção, e logo teremos novas oportunidades para exercitá-la.
Pouco a pouco, podemos construir ao redor de nós uma realidade extremamente confortável na qual quase todos parecem pensar exatamente como nós.
E então ocorre uma transformação curiosa.
Deixamos de perguntar:
“Isso é verdade?”
E passamos a perguntar:
“Quem disse isso?”
Se foi alguém do nosso grupo, acreditamos.
Se foi alguém do outro, desconfiamos.
A verdade deixa de depender dos fatos e passa a depender da tribo.
É aqui que a estupidez se torna mais perigosa do que a maldade.
O homem mau pode saber que está fazendo o mal. Pode esconder seus atos porque teme ser descoberto. Pode sentir culpa. Pode calcular consequências. E, justamente porque reconhecemos suas intenções, podemos combatê-lo.
O estúpido de Bonhoeffer possui uma vantagem terrível sobre ele: acredita que está fazendo o bem.
Pode perseguir em nome da justiça.
Censurar em nome da liberdade.
Mentir em defesa da verdade.
Humilhar em nome da virtude.
E talvez até dormir muito bem depois disso.
É essa possibilidade que torna sua estupidez politicamente explosiva. Uma pessoa assim pode transformar-se, nas palavras de Bonhoeffer, em instrumento capaz de praticar o mal sem sequer perceber que aquilo que faz é mau.
O nazismo demonstrou de maneira trágica onde esse mecanismo pode terminar. Hitler e seus colaboradores mais próximos não teriam conseguido produzir sozinhos uma máquina de perseguição, guerra e extermínio. Para que o mal se transformasse em sistema, foi necessária uma gigantesca engrenagem humana composta também por pessoas que obedeciam, preenchiam formulários, cumpriam ordens, repetiam explicações e preferiam não perguntar demais.
Talvez seja justamente aí que Bonhoeffer continue tão atual.
Gostamos de imaginar que, se tivéssemos vivido na Alemanha dos anos 1930, teríamos reconhecido imediatamente o perigo. Estaríamos certamente entre os resistentes, jamais entre os conformados.
É uma fantasia agradável.
Mas provavelmente a pergunta mais útil é outra:
quando todos ao nosso redor concordam conosco, ainda somos capazes de desconfiar de nós mesmos?
Essa talvez seja a verdadeira vacina contra a estupidez.
Não a inteligência.
Não os diplomas.
Nem sequer o conhecimento.
Mas a independência interior necessária para pronunciar três palavras extraordinariamente difíceis:
“Talvez eu esteja errado.”
Porque o mal precisa de homens maus para começar.
Mas, para crescer, organizar-se e finalmente tornar-se sistema, precisa de algo muito mais abundante:
gente convencida de que já não precisa pensar.
Este texto foi produzido principalmente pelo chatGPT e se baseia no ensaio “On Stupidity”, incorporado a Letters and Papers from Prison (Cartas e escritos da prisão), inclusive a edição crítica DBWE 8, além de material da International Bonhoeffer Society sobre o contexto de sua resistência ao nazismo.
Se voce deseja ver um excelente video do YouTube sobre o assunto por favor clique aqui.
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