O aquário de Miss Saigon
ilustração gerada por Bing Image Creator
‘Entra sem fazer barulho. E, não esquece, você não deve abrir a cortina de jeito nenhum. A madame gosta de ficar assim, meio isolada do mundo. Usa esse pincel para tirar o pó dos móveis entalhados. E não quebra nada, senão ela vai fazer o maior drama’, disse a empregada à jovem que continuava imóvel no hall de entrada.
Boquiaberta, Simone fitava o imenso aquário no meio da sala, sem escutar o que a empregada dizia. ‘Nunca tinha visto coisa tão linda, e olha que eu já trabalhei para muita gente rica’, pensava ela enquanto seu olhar se detinha em cada canto da casa. As sombras que as caudas tremulantes dos peixes Beta projetavam nas paredes davam a ela um sentimento de paz e perplexidade!
‘Acorda, rapaz! Amanhã eu te ensino a alimentar os peixes. Por enquanto você só vai tirar o pó.’
‘O mundo não é mesmo justo’, pensava Simone, deslizando a mão esquerda pela seda encorpada que impedia a entrada dos raios de sol. ‘Eu bem que gostaria de transformar essa cortina em um vestido elegante. Garanto que o Afonso jamais desapareceria se um dia tivesse me visto em um vestido chique assim. Qual é o cara bacana que iria perder seu tempo com uma garota que está sempre vestida com roupas vulgares?
Naquele momento Dona Alba entrou na sala, envolta em um robe de seda chinês e uma aura de mistério. Com a mente ainda turva pelas névoas noturnas que mal começavam a se dissipar, seu olhar vagueou pela sala até fixar-se no aquário. Era hora do ritual diário de saudação aos seus peixes, porém um sinal sonoro proveniente do celular de Simone perturbou sua concentração.
‘Perdão, madame. Essa é a Simone. Hoje é o primeiro dia de trabalho dela.’,
Dona Alba soltou um suspiro enquanto examinava Simone dos pés à cabeça com olhar de desagrado. ‘Evelyne, dê a ela um uniforme que lhe sirva e oriente quanto ao uso do celular dentro dessa casa.’
Enquanto ajustava o cabelo sob a touca do uniforme e abandonava seu celular no fundo da bolsa, Simone enfim pareceu emergir do estado hipnótico em que havia mergulhado ao entrar naquela casa. ‘Que lugar exótico! A patroa deve ser muito especial para viver desse jeito. Ela é estrangeira?’
‘Não, Simone. Madame foi artista de teatro quando jovem e ficou famosa por interpretar “Miss Saigon”. O apartamento acabou de ser redecorado, pois ela desejava um ambiente chique e meio oriental, semelhante ao cenário da peça que tornou ela conhecida. Mas onde já se viu bordel com um aquário?’, disse Evelyne às gargalhadas, enquanto saía para providenciar o almoço.
Munida de pincel, Simone começou a tirar o pó dos detalhes rebuscados que enfeitavam os móveis da sala. As manchas de luz e sombra que se moviam incansáveis pelas paredes e móveis ao seu redor traziam a lembrança daquele peixe azul que em outros tempos nadava em círculos dentro de um copo d’água sobre o balcão, irritado pelas batidas incessantes de um dedo qualquer na superfície do vidro. Um peixe que mais parecia a sua alma encarnada! Solitário, angustiado, admirado por sua beleza e incapaz de viver em paz com um semelhante. Até o dia em que um dedo lânguido se deteve sobre o copo desenhando arabescos, enquanto um par de olhos a tirava do seu torpor. ‘Quero ela’, ele disse para a cafetina, indicando Simone com um movimento do queixo. Simone, que nunca tinha se apaixonado na vida, em pouco tempo havia perdido a cabeça por aquele homem de mãos sedosas e olhar insistente. ‘Como ele foi capaz de sumir depois das noites tórridas que passamos juntos?’, ela exclamou entre dentes, largando o porta-retratos com estrondo.
‘O que você está fazendo aí, menina. Toma cuidado.’, esbravejou a patroa. ‘Essas fotos marcam um momento histórico: ninguém foi capaz como eu de enxergar a verdadeira alma e o sofrimento de Kim. Você já ouviu falar de Miss Saigon, a melhor peça de teatro já ensaiada no Brasil? Hum? Mais que besteira!’, falou ela, enfurecida, enquanto lançava os braços para o alto, em uma atitude estudada. ‘Por que eu estou gastando saliva contando esta história? Logo para você, criatura, incapaz de entender as sutilezas da alma’.
Anos de palco haviam dado a Dona Alba a capacidade de detectar o momento em que perdia a conexão com seu público. E a atenção de Simone definitivamente havia se perdido no exato momento em que deteve ambas as mãos sobre o ventre. Ela acabara de sentir pela primeira vez os movimentos de uma alma solitária que nadava enclausurada em seu ventre. ‘Pobre criança, que destino a aguarda!’, foi o pensamento que cruzou sua mente, acompanhado de uma única lágrima. Mas quantas vezes o número um é suficiente para mudar um destino? Nesse caso, a única lágrima vertida por Simone danificou a aquarela que estava em suas mãos, provocando uma crise de ira em sua patroa. Não que a aquarela fosse bonita, mas havia sido presente de um desembargador. E isso bastava.
Em questão de minutos, Simone foi expulsa da casa de Dona Alba, com a toca do uniforme ainda em sua cabeça, mal cobrindo as mechas de cabelo que teimavam em escapar sob a renda. Além de arruinar uma obra de arte, Simone havia ferido a autoestima de Dona Alba, lhe negando o direito a uma plateia cativa e generosa. Desesperada, sem ter onde cair morta, nem dinheiro para se manter, como ela proporcionar o lar honesto que seu filho merecia?
Sentada em um banco de praça, a poucos metros do prédio de Dona Alba, Simone se martirizava com esses pensamentos sombrios, quando viu Afonso entrar no prédio de onde ela recém havia saído.
‘Afonso. Meu amor. Achei que você tinha viajado! Que bom que te encontrei. Nós temos tantas coisas para conversar...’
Afonso, surpreendido pela gritaria de Simone, mal a reconheceu com aquela toca de empregada doméstica. O que ela estava fazendo ali em frente à casa de sua mãe? Quando ele se deu conta da atenção malsã que ela estava despertando entre os transeuntes, Afonso a afastou com um safanão. ‘Sai mulher, eu não te conheço’, ele gritou para que todos ouvissem e passou de queixo erguido pelo porteiro, que mal disfarçava a cara de riso. Dona Alba havia determinado que segunda-feira era dia de almoçar com seu filho e nada podia impedir que seus planos se concretizassem com perfeição. Afonso sabia que Dona Alba não era mulher de aceitar falhas!
No jornal matutino do dia seguinte viria impressa a notícia do suicídio de uma mocinha, que havia se jogado da ponte sobre o Rio Guaíba ao cair da noite. Um passante teria informado ao jornalista que ela trabalhava no bordel ali pertinho. Quando Evelyne comentou essa notícia com Dona Alba na hora do almoço, ambas ficaram abismadas com a conduta da garota. ‘O que faz essas meninas tomarem uma atitude tão estúpida? A vida é tão bela e cheia de surpresas! Quem diria na minha infância que um dia eu seria capaz de representar com perfeição os sofrimentos de Miss Saigon?!’, disse a patroa antes de estender o guardanapo de linho sobre o colo.
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