O ano em que a poligamia virou lei
Muito tem sido dito sobre a declaração da autora de “O conto de Aia” de que sua história não se baseia em nada que já não tenha ocorrido. Ela resulta de uma combinação de fatos que sem passaram em diferentes lugares e em diferentes épocas. Mas um dos fatos mais incríveis é o que vou te contar agora.
Durante 16 meses, a poligamia foi obrigatória na cidade de Münster, na Alemanha, e, quem se negasse a seguir esta lei, era torturado e morto. Esta história se passou em 1534, e nos auxilia a compreender como os efeitos de uma crise climática severa podem moldar a consciência e os costumes de uma sociedade conservadora e fazer com que comportamentos antes considerados absurdos e depravados sejam adotados pela maioria como sendo a solução para reencontrar o equilíbrio em um “novo normal”.
Naquele período, o hemisfério norte atravessava o que hoje se conhece como a Pequena Era do Gelo, que durou do ano 1300 até o ano 1850, sendo que no ano de 1534 a Europa vivia uma das suas épocas de frio mais severo, quando houve o avanço acelerado das geleiras nos Alpes. O frio extremo e as chuvas incessantes causavam o apodrecimento das raízes das lavouras e impediam os grãos de amadurecerem. Colheitas inteiras eram perdidas e, como consequência, a Europa mergulhou em um longo período de fome, guerras, intolerância religiosa e pestes. As pessoas acreditavam que esta catástrofe era o sinal de que o fim do mundo estava próximo.
O vilarejo de Münster vivia uma profunda crise social, econômica e religiosa. A cidade era governada por um príncipe-bispo e uma elite de patrícios tradicionalistas, que exploravam o povo com a cobrança de impostos abusivos no intuito de manterem o seu padrão de vida luxuoso mesmo num tempo de escassez. A reforma protestante de Martinho Lutero havia quebrado o monopólio da Igreja católica e colocado o povo em uma crise religiosa: qual seria a verdadeira fé a ser adotada? Os campesinos vivam um regime de servidão e fome, e morriam feito moscas, vítimas da peste bubônica.
Em fevereiro de 1534, desembarcaram no porto de Münster dois líderes anabatistas vindos da Holanda. Um deles era originalmente padeiro, e o outro, aprendiz de alfaiate, mas ambos haviam se tornado líderes carismáticos devido a sua capacidade de oratória. Eram eles Jan Matthys e Jan van Leiden.
Jan de Matthys tornou-se um profeta em meio ao caos, prometendo a transformação de Münster em um reino divino, onde não havia propriedade privada, impostos ou pobreza. O profeta deu o nome de “Nova Jerusalém” a essa terra. Expulsou da cidade os católicos e luteranos que se negaram a entrar para sua seita, e incentivou a vinda de imigrantes anabatistas radicais de toda a Europa. A maioria dos que conseguiram se infiltrar na cidade sitiada era de mulheres solteiras, viúvas e mães, que fugiam da miséria e da perseguição religiosa. Por outro lado, os homens da cidade morriam nos combates cotidianos com o exército do Príncipe-bispo. O resultado foi uma cidade onde as mulheres formavam a maioria esmagadora da população: para cada homem havia três mulheres.
O desequilíbrio de gênero serviu como argumento para Jan Matthys propor a poligamia como um dever divino absoluto. Deixar mulheres em idade fértil solteiras era visto como um pecado grave contra a vontade de Deus. Restrições monogâmicas passaram a ser vistas como corrupções romanas que precisavam ser destruídas. O Apocalipse era iminente e a Terra precisaria ser repovoada, sendo a poligamia o mecanismo teológico para acelerar este processo.
Oficiais do regime passaram então a bater de porta em porta, registrando as mulheres solteiras virgens, viúvas e esposas abandonadas. A seguir, elas foram atribuídas aos homens com base nas requisições feitas por estes, as quais foram homologadas pelos líderes espirituais. Os direitos civis tradicionais das mulheres foram suprimidos. A elas foi negado o direito à recusa matrimonial, à proteção legal contra o adultério masculino, o direito à propriedade e herança, o direito à gerenciar negócios urbanos, o direito à guarda e estrutura familiar e à dissidência religiosa.
As mulheres e homens que se negassem a adotar a poligamia foram torturadas e executadas. Essa solução também foi adotada para suprimir fofocas contra o regime, reclamações sobre a fome crescente resultante do estado de sítio em que viviam, e comentários sobre a situação econômica privilegiada em que viviam Jan de Leiden e suas 16 mulheres.
Finalmente em 1535, após um longo e rigoroso cerco, a cidade foi libertada, as tropas executaram quase todos os habitantes que ainda restavam e os líderes anabatistas foram capturados, suas línguas extraídas com pinças de ferro e uma adagada ardente enfiada em seus corações. Seus corpos ficaram expostos em gaiolas de ferro penduradas no campanário da Igreja de São Lamberto até que apodrecessem. Cinquenta aos mais tarde, seus ossos foram enfim removidos, mas as cestas permanecem no local até hoje para que ninguém se esqueça desta história.
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