O Sangue Verde da América
Saiba como um fungo transportado para a Irlanda por navios cargueiros americanos resultou na “Grande Fome da Batata” e provocou uma das maiores levas migratórias para os EUA.

A “Era de Ouro” da imigração em massa pelo porto de Nova Iorque ocorreu entre 1895 e 1914. À essa época, a frente migratória provinha principalmente da Europa, sendo que a primeira grande leva de estrangeiros veio da Irlanda. Eles abandonaram sua terra fugindo da fome, a qual ficou conhecida como a “Grande Fome da Batata”. Este movimento migratório resultou na vinda de cerca de 1 milhão de irlandeses para os EUA, quase 1/6 da população total da ilha àquela época.
Embora o período conhecido como a “Pequena Idade do Gelo” estivesse em seu final, o frio e a chuva excessiva da época criaram condições climáticas perfeitas para que a Grande Fome da Batata ocorresse. A causa direta desta catástrofe foi um fungo conhecido como Phytophthora infestans, conhecido popularmente como o míldio da batata. Este fungo foi levado acidentalmente para a Europa por navios cargueiros provenientes da América do Norte, e encontrou na Irlanda o ambiente ideal para se reproduzir de forma explosiva e dizimar as colheitas.
Além do clima frio e úmido naquela época, contribuiu para a catástrofe o hábito dos irlandeses de utilizar uma única variedade de batata – a Irish Lumper, replantada utilizando pedaços de batatas colhidas no ano anterior. Isto resultava em lavouras de batata geneticamente idênticas umas às outras, como clones perfeitos. Por isso, quando o fungo atacou as plantações, não houve uma única planta resistente em todo o país.
Essa variedade de batata era a única capaz de produzir grandes volumes de alimento nos solos pobres e rochosos ocupados pelos camponeses católicos da ilha, e constituía a quase totalidade da dieta básica do adulto irlandês. Eles consumiam, em média, 4 a 6 quilos de batata por dia, misturadas a um pouco de água e leite. A dependência da população desta lavoura era tão forte, que, quando a praga atacou a colheita, o censo registrou uma queda de quase 20% da população em dez anos. Um milhão de pessoas morreram de fome enquanto outro milhão de irlandeses fugiram do país para escapar da miséria.
Contudo, a situação que estes imigrantes encontraram nos Estados Unidos não foi muito melhor. Tendo emigrado para os EUA sem dinheiro para comprar terras ou para viajar para o interior, eles ficaram concentrados próximo aos portos de desembarque, nas cidades de Nova Iorque e de Boston sobrevivendo em condições miseráveis.
Eram vistos pela população protestante local com desconfiança devido à sua submissão ao Papa, sendo considerados alcoólatras, violentos e biologicamente inferiores. As péssimas condições de vida nos cortiços de Nova Iorque e a falta de emprego resultaram em uma expectativa de vida média de 6 anos após sua chegada ao continente americano.
Foram necessárias décadas para que esses imigrantes conseguissem sair da miséria. Isso acabou acontecendo graças aos esforços da igreja católica, que construiu uma rede gigante de escolas, hospitais e orfanatos para fornecer uma rede de apoio social. Além disso, os irlandeses tiveram amplo acesso à educação e aprenderam a votar em bloco, assumindo o controle do partido democrata de Nova Iorque.
Nas décadas seguintes, desembarcariam nos EUA ondas migratórias provenientes da Alemanha, da Itália e do Império Russo.
A ilustração da chegada dos Irlandeses nos EUA foi gerada pelo Bing Image Creator.
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