Nós, robôs.
Neste conto, nos deparamos com o triste destino de um ser humano que vive sua vida desacoplada de seus desejos, sendo suas atitudes moldadas em função de regras imaginárias e do que os outros pensam dela. Apenas as memórias podem tirá-la de sua apatia.

Imagem gerada pelo Bing Image Creator
Clara entra na saleta trazendo com cuidado extremo uma bandeja com xícara, pratinhos, e uma seleção de bolos para seu café da tarde. Perturbada pelo olhar de desprezo que as garotas mais novas da comunidade lhe dirigem, ela se atrapalha e tropeça no tapete, derrubando parte do seu lanche no chão. Risinhos não tão discretos eclodem no canto da sala. Envergonhada, ela cata o guardanapo rendado no chão e começa a limpar a sujeira.
‘É tão difícil viver aqui’, ela pensa. Já faz 8 anos que se separou do namorado e, por não ter renda suficiente para morar sozinha, Clara acabou vindo morar em uma destas residências comunitárias para pessoas de baixa renda que se multiplicaram pela cidade desde que a IA começou a ceifar postos de trabalho na sua região. Mas pelo fato de ser mais velha que as demais e muito tímida, ela acabou não se integrando com as outras garotas. Nestes últimos anos, apenas os livros quebram a solidão que preenche seus dias.
Após beber o chá que restou no fundo da xícara e catar os pedaços de bolo que não haviam encostado no tapete, ela afinal abre o livro de Asimov que trazia sob o braço. As leis da robótica e uma descrição entediante dos primeiros anos da Dra. Susan Calvin na fábrica U.S. Robots ocupam as primeiras páginas. Aborrecida, ela fecha o livro com um suspiro, sem se preocupar em marcar o canto da página em que havia parado. ‘Não é nada do que eu havia imaginado’.
Nisso, a porta da saleta se abre e um homem de meia-idade entra silenciosamente, procurando um lugar para sentar-se. Uma das garotas anuncia à sua vizinha que ele é um médico desempregado e que ficará alojado na comunidade por um tempo. O único lugar livre na sala era o canapé ao lado da poltrona onde Clara estava sentada. Agora não mais.
Alheio aos demais, ele se deita de bruços, tira o celular do bolso e começa a navegar pelas redes sociais e anúncios de emprego sem demonstrar muito entusiasmo. Ele parece não se dar conta de que, ao deitar-se, a calça larga que vestia havia deslizado, deixando exposta a porção superior de suas nádegas. O olhar de Clara recai automaticamente sobre aquele trecho de pele clara, sem marca de sol ou cicatriz. ‘Tão lindo, quase infantil!’, ela murmura. A imagem trouxera à sua memória a visão de seu irmão caçula saltando pela casa, repetindo às gargalhadas ‘Rego da bunda, rego da bunda’, enquanto enchia de ar o espaço sob o lábio superior, mimetizando a curva pronunciada das nádegas.
Subitamente consciente da atenção que despertava, Caio – era esse o seu nome – encara a mulher ao seu lado e lhe estende a mão, abrindo espaço para ela ao seu lado. ‘O quê? Nããão!’, ela responde, enquanto volta as palmas das mãos para o homem, o rosto enrubescido e os olhos semicerrados em um sinal de repúdio. Ele parece achar graça daquela mudança abrupta no comportamento dela. ‘Vem’, ele repete, puxando-a com delicadeza pela ponta de seus dedos.
Sem saber o que fazer para evitar de ser ridicularizada pelas demais garotas, que acompanham a cena com interesse, ela se senta no canapé ao lado dele, os olhos fixados em suas mãos, agora repousando em segurança sobre o colo. ‘Nada como um desafio’, ele declara entre risos, enquanto seus olhos avaliam Clara com moderado interesse.
Com a atenção ainda voltada para o turbilhão de emoções que a invadem, Clara sente que uma das mãos do estranho avança sobre suas costas, chega ao côncavo do seu pescoço e a puxa em direção a si, enquanto lhe ordena ‘Me beija’. Com o seu rosto assim mantido a poucos centímetros do dele, e seus olhos encantados feito passarinho pelo olhar da serpente, ela não vê outra saída e lhe dá um beijo casto, na boca.
Caio enfia as pontas dos dedos em seus ombros e a sacode. Seu sorriso se mantém represado aos lábios, enquanto seu olhar permanece hipnótico, inexpressivo. ‘De língua’, ele ordena com a voz agora mais elevada. Então, uma ponta de língua rósea e brilhante se projeta dos lábios dela, mas ela parece ter esquecido como se dá um beijo. Já faz tantos anos...
O clique da porta que se fecha captura sua atenção, e ela se dá conta de que as demais garotas devem ter saído da sala e os deixado a sós. Agora a língua dele e seus dedos invadem cada centímetro da sua pele, e aos poucos, ela começa a retribuir as carícias com mais entusiasmo. Com a mente perdida em memórias do passado, seu corpo redescobre movimentos sensuais como por encanto, enquanto sua boca geme de prazer. Quando suas entranhas começam a trepidar sem controle, ela sente como se uma parte dela se destacasse da cena e observasse tudo com espanto: um orgasmo!
Ao se dar conta do que está acontecendo, ele se afasta dela aborrecido. ‘Inútil! Vai me deixar na mão!’ Novamente deitado de bruços sobre o canapé, seus dedos indo e vindo sobre a tela do celular em busca de opções de emprego, é como se nada tivesse acontecido há poucos minutos. Ela então se levanta, alisa as roupas com suas mãos, ajeita as mechas de cabelo, agarra sua bandeja e abre a porta da saleta à espera dos risos abafados de suas colegas do alojamento que certamente virão.
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