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A Salamanca do Jarau

Você achava que “A Salamanca do Jarau” era apenas uma lenda gaúcha? Nesta versão, adicionei fatos históricos, conhecimentos geológicos e um pouco de magia para contar como os mistérios da antiga Cova de Salamanca teriam atravessado o oceano e chegado aos pampas gaúchos. Divirta-se!

Magos mouros veem o Cerro do Jarau durante uma sessão de geomancia (by chatGPT)

Esta história começa na Espanha, no ano de 1500, apenas oito anos depois da conquista de Granada pelos Reis Católicos. Os mouros haviam chegado à Península Ibérica quase oito séculos antes e ali construído uma civilização que se destacara pelo conhecimento da astronomia, da medicina, da matemática e de outras ciências. Mas os tempos haviam mudado. Com a vitória dos cristãos, os muçulmanos vinham sendo cada vez mais pressionados a abandonar suas crenças e costumes.

Entre os mais ameaçados estavam os alunos de uma pequena escola clandestina, instalada sob uma igreja situada junto às muralhas da cidade de Salamanca.

Naquela noite, Ibrahim al-Qurtubí entrou discretamente na igreja de San Cebrián. Caminhou por entre os bancos quase vazios, deteve-se diante de um altar lateral e, depois de verificar que não estava sendo observado, dirigiu-se a uma estreita escadaria abobadada. Desceu lentamente os 25 degraus, apoiando a mão nas paredes de pedra nua. À medida que avançava, o ar se tornava mais frio e um cheiro de enxofre, que ele conhecia bem, começava a substituir o perfume do incenso.

— As-salāmu ʿalaykum, meu irmão. Que Allah ilumine teus caminhos! — saudou Yusuf al-Gharnatí, quando o viu entrar na Cova de Salamanca. — Que notícias trazes do reino?

— Wa ʿalaykumu s-salām. Que Ele proteja os segredos que compartilhamos — respondeu Ibrahim, antes de se voltar para Mansur al-Mursí, que também o aguardava.

Os três eram alunos da misteriosa escola de magia que funcionava naquela construção subterrânea, formada por cavidades e passagens ocultas sob a igreja de San Cebrián. Segundo se comentava à boca pequena na cidade, o próprio sacristão que ministrava as aulas era uma encarnação do diabo. Os alunos preferiam não discutir o assunto. Afinal, ninguém jamais o vira entrar ou sair da igreja, embora estivesse sempre presente quando chegavam para as lições.

Ali aprendiam astrologia, alquimia, adivinhação, confecção de talismãs e outras práticas ocultistas. Conhecimentos que, transmitidos de geração em geração, haviam atravessado o Mediterrâneo com os primeiros mouros que chegaram à Península Ibérica.

Apesar de condenar a feitiçaria, a população recorria frequentemente aos seus praticantes para curar enfermidades, prever casamentos, escolher datas favoráveis para viagens ou adquirir talismãs contra o mau-olhado. E não eram apenas os pobres que procuravam seus serviços. De vez em quando, uma liteira luxuosa parava discretamente junto à igreja, e dela descia alguma dama da nobreza, escondida sob um pesado véu.

Naquela noite, porém, ninguém estava interessado em consultas ou ensinamentos.

— E então, Ibrahim, que novidades nos trazes? — perguntou Mansur, incapaz de disfarçar a angústia.

— A rainha Isabel ordenou que a entrada da Cova seja fechada com pedras e argamassa. Quanto a nós, teremos de aceitar o batismo cristão, ou então enfrentar as consequências.

Uma expressão confusa invadiu o rosto dos seus companheiros, e Ibrahim esclareceu a questão prontamente passando o indicador ao longo da garganta, como a lâmina de uma espada:

— Sssic!

— Bárbaros! — exclamou Mansur. — Sem os conhecimentos que nossos antepassados trouxeram, esta região jamais teria alcançado tamanho esplendor!

— Basta de discursos — interrompeu Yusuf. — Precisamos decidir o que fazer antes que venham nos prender

Por alguns instantes, os três permaneceram em silêncio. Então Ibrahim sugeriu:

— Que tal consultarmos a areia? O ilm al-raml jamais nos deixou sem resposta.

Yusuf dirigiu-se às prateleiras, remexeu entre frascos, pequenos ossos, cristais e pergaminhos amarelados, até encontrar uma bandeja de cobre. Colocou-a sobre a mesa e cobriu seu fundo com uma camada de areia finíssima.

Os três se sentaram ao redor da mesa, deram as mãos e fecharam os olhos. Começaram então a murmurar invocações quase inaudíveis. Pouco depois, Yusuf, munido de uma pequena haste metálica, começou a traçar sucessivas fileiras de pontos na areia.

Durante algum tempo nada aconteceu.

Então a chama das lamparinas se inclinou, embora não houvesse vento naquela cova.

Yusuf percebeu que os pontos começavam a se mover. Primeiro lentamente, depois com crescente rapidez, as pequenas depressões se deslocaram pela superfície da areia formando círculos concêntricos - como ondas que se formam em um lago de águas plácidas quando jogamos uma pedra.

— Não fui eu que desenhei isso — murmurou Yusuf.

Ibrahim ergueu a mão para pedir silêncio.

Da areia começou a emergir uma paisagem de rara beleza. À medida que os minutos avançavam, suas cores ficavam mais vivas e seus contornos mais nítidos. Os três magos tinham a impressão de contemplá-la através de uma janela aberta para outro mundo. 

Viram um extenso campo de coxilhas recobertas pela relva, sem castelos, estradas ou construções. Subitamente, uma estrela incandescente atravessou o céu, indo cair em meio às coxilhas. A imagem então estremeceu, e formou-se um arranjo concêntrico de rochas em torno da área onde a estrela havia caído.

Espalhados sobre a relva, agora viam-se cristais de ametista, citrino, ágata e ônix, que refletiam o clarão da lua, conferindo à cena uma aura misteriosa.

Mas havia algo mais.

Os círculos pareciam respirar.

A cada pulsação, as rochas se iluminavam por um breve instante, como se uma força desconhecida estivesse aprisionada sob a terra. 

— Uma estrela cadente... — sussurrou Ibrahim, fascinado. — Há quanto tempo estará enterrada naquele lugar?

Mansur se inclinou sobre a mesa para enxergar melhor, e, sem querer, soltou a mão dos seus companheiros. Nisto, a paisagem começou a se desfazer. Os cristais perderam o brilho, as coxilhas se dissolveram numa névoa e os círculos desapareceram, deixando sobre a areia apenas as marcas iniciais da consulta.

Por alguns segundos, ninguém se moveu.

Apenas uma brisa fresca, carregada de um cheiro desconhecido de capim e terra úmida, percorreu a câmara e subiu lentamente pela escadaria.

— Mas onde fica este lugar? – perguntaram em uníssono Yusuf e Mansur

Ibrahim não parecia perturbado. Já havia espalhado sobre a mesa seus instrumentos de astrologia e agora examinava atentamente a figura celeste que havia produzido.

— Os astros confirmam que precisamos partir. E depressa. Temos apenas três dias antes que se encerre a conjunção favorável à nossa viagem.

— Partir para onde? — perguntou Mansur.

— Para o oeste. Além do Mar Tenebroso. Seguiremos com os navegadores portugueses que estão prestes a partir para as Índias. As cartas indicam que nosso destino está muito além das terras conhecidas.

— E levaremos a princesa? — quis saber Yusuf.

— Evidentemente.

Mansur sorriu, pensativo:

— Se usarmos aqueles cristais para concentrar a energia que emana do local, conseguiremos multiplicar nossos poderes. Se a isso juntarmos nosso conhecimento de alquimia, poderemos transformar toda aquela riqueza em ouro. Alá seja louvado!

Yusuf não compartilhava seu entusiasmo. De cabeça baixa, ele se sentia invadido por uma tristeza profunda. Amava aquela terra onde seus antepassados haviam vivido durante tantos séculos. Ali estavam suas lembranças, seus mortos, sua língua e tudo aquilo que dava sentido à sua existência. Partir seria como arrancar suas próprias raízes.

E ainda havia a princesa moura...

Como conseguiriam atravessar o oceano levando uma mulher cuja beleza, segundo se dizia, já fizera homens perderem a razão?

Três dias mais tarde, em 9 de março de 1500, os três magos e a princesa embarcaram clandestinamente na esquadra de Pedro Álvares Cabral, que partiu de Portugal rumo às Índias.

A princesa vinha disfarçada como de criada, envolta em um manto escuro e gasto que a cobria da cabeça aos pés. Caminhava curvada, apoiando-se num cajado. Ninguém desconfiava de sua identidade, pois os magos haviam jogado um feitiço em seu manto: mesmo quando os marinheiros afirmavam ter visto o seu rosto, eles eram incapazes de recordá-lo.

A viagem foi penosa.

Os dias se arrastavam entre o calor sufocante, a comida deteriorada e o balanço interminável do navio. Quando finalmente avistaram a costa brasileira, um mês e meio mais tarde, os viajantes estavam tão debilitados que decidiram abandonar a esquadra na primeira oportunidade. Fugiram clandestinamente para terra firme, levando apenas os instrumentos de magia, algumas provisões e os poucos objetos preciosos que haviam conseguido esconder.

Ibrahim consultou novamente os astros.

— Ainda estamos longe. Precisamos seguir para o sul.

Não se sabe por quanto tempo viajaram, nem por quais caminhos avançaram. Talvez tenham navegado pela costa, talvez atravessado florestas e rios desconhecidos com a ajuda dos habitantes daquelas terras. As versões dessa parte da história são contraditórias, e algumas chegam a mencionar acontecimentos tão extraordinários que não merecem confiança nem mesmo entre os contadores de lendas.

O certo é que, muito tempo depois, os quatro viajantes alcançaram os campos do extremo sul.

Ali, as florestas cediam lugar a uma imensidão de montes baixos cobertos de capim que ondulavam ao vento, e o pôr-do-sol parecia consumir os dias em chamas.

Foi num fim de tarde de primavera que eles afinal avistaram ao longe um conjunto de cerros onde elevações rochosas que se erguiam do solo desenhavam os mesmos anéis irregulares que eles haviam visto na areia da Cova de Salamanca

Yusuf foi o primeiro a reconhecer o lugar.

— Ibrahim... Olha!

Era o local que hoje conhecemos como Cerro do Jarau, situado no sul do Brasil.

Mansur correu alguns passos, tomado pela excitação, mas parou abruptamente. O chão sob seus pés acabara de tremer. Nisto, Ibrahim se ajoelhou e encostou a palma da mão na terra. Uma pulsação lenta e profunda continuava sacudindo o local, deixando todos eles assustados. 

A princesa moura, que vinha muda desde que haviam deixado a Espanha, deu um passo à frente, retirou seu véu em um gesto lento e gracioso e falou:

— Demoramos demais.

Naquele instante, muito abaixo dos círculos de pedra, alguma coisa despertou.

 

Esta história continua no conto “A Teiniaguá”, que em breve será publicado. Por favor aguarde.

 

Veja abaixo quais fatos históricos e elementos geológicos foram adicionados à lenda original:

  • Os mouros trouxeram consigo a tradição de práticas ocultistas quando invadiram a península ibérica nos anos 711 d.C.
  • Há uma igreja denominada San Cebrián em Salamanca, próximo à antiga muralha da cidade. Abaixo dela há um local denominado Cueva de Salamanca, onde há registros de que houve uma escola de ocultismo
  • o jesuíta Martín del Río (1551–1608), um importante estudioso da demonologia, em sua obra Disquisitionum magicarum (Disquisições mágicas), publicada a partir de 1599, afirma que a Rainha Isabel, a Católica, mandou fechar a porta da Cueva de Salamanca com pedras e argamassa
  • Na região de Quaraí, RS, existe um arranjo concêntrico de rochas sobre as coxilhas identificado como um astroblema, uma feição geológica formada pelo impacto de um meteoro. É nesta região que fica o Cerro do Jarau.
  • A prática da Geomancia, que utiliza uma bandeja coberta por uma camada de areia, existe, mas neste conto ela foi turbinada.

 

Obrigada por ler até aqui. Te espero no próximo conto!


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Tags: lendas gauchasmagos mourosocultismocova de Salamancacerro do Jarauastroblema

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