A Ira da Deusa Nanda Devi
Nesta manhã eu soprava uma xícara de café fumegante, forte o suficiente para dissipar as memórias de uma noite mal dormida, quando me deparei com as notícias de uma tempestade de granizo que ocorreu ontem na Suíça, e que foi muito mais destruidora do que aquela que me arrancou de meus sonhos nesta madrugada. Lembrei então de uma história que ouvi há muito tempo, sobre a ira da deusa Nanda Devi contra a poluição e profanação de sua terra.

Rei Jasdhawal, à beira do Lago Roopkund no Himalaia (Bing Image Creator)
Já passava da uma da madrugada quando acordei com um barulho infernal vindo da rua. Corri para a janela e vi pedras de granizo de 2 a 3 cm que ricocheteavam nas calhas e na vidraça antes de se acumular sobre a grama. Em questão de poucos minutos, o jardim ficou todo coberto de branco e a tempestade cessou. Quando levantei poucas horas mais tarde tudo parecia normal, exceto a presença de galhos de pinheiro e de flores de manacá por todos os lados, e um córrego de água de degelo que escoava vigoroso pelo meio-fio.
A tempestade de granizo que caíra na Suíça poucas horas mais cedo fez estragos bem maiores do que os observados aqui na serra gaúcha. Pedras de até 6 cm de diâmetro provocaram a destruição de carros, telhados e vidraças, e causaram a internação de várias pessoas. Uma diferença tão pequena no tamanho das pedras de gelo fez toda a diferença no grau de destruição. Os meteorologistas dizem que tempestades de granizo como essa ocorrem uma vez a cada 50 anos. Agora imagine o que poderia ter acontecido se houvessem pessoas caminhando a céu aberto, sem terem onde se abrigar durante a tempestade! Pois isso é o que tem ocorrido ao longo dos séculos nos arredores do lago Roopkund, nos Himalais indianos.
Em 1942, um guarda florestal britânico caminhava nas cercanias do lago Roopkund, situado a mais de 5000m de altitude, quando se deparou com ossos humanos espalhados à sua volta e no fundo do lago. Os estudos científicos que se seguiram mostraram que esses ossos pertenciam a indivíduos de diferentes partes do globo que por ali tinham passado ao longo dos últimos 1500 anos. O maior grupo de ossos pertencia a indivíduos do sul da Ásia que haviam morrido entre os séculos VII e X d.C. Os cientistas observaram que a maior parte dos ossos estavam intactos, apenas os crânios mostravam fraturas profundas, indicando terem sido causadas por golpes na cabeça vindos de cima.
Lendas locais e canções cuja origem se perdeu no tempo falam de um grupo de peregrinos indianos que partiram da cidade de Kannauj e passaram pela região do lago Roopkund em direção ao santuário da deusa Nanda Devi. Eles vinham na companhia de seu rei Jasdhawal e de sua esposa grávida. Ignorando as regras sagradas, o rei havia trazido consigo dançarinos, músicos e luxos impuros de sua corte. A peregrinação foi interrompida quando o grupo se aproximou do lago devido às dores do parto da rainha. Ela foi então levada para conceber em uma caverna situada nas proximidades, protegida dos olhares indiscretos.
A deusa Nanda Devi, irritada com a arrogância do rei e com a repetida profanação do solo sagrado, enviou uma tempestade de granizo que causou a morte de todos. Seus corpos, posteriormente transportados pelas chuvas caudalosas, foram parar no fundo do lago. Os cientistas dizem que o padrão de fraturas dos crânios indica que as pedras tinham de 7 a 8 cm de diâmetro e eram perfeitamente esféricas. Além disso, como as nuvens de tempestades ocorrem muito próximo do solo no alto do Himalaia, pedras de gelo dessa dimensão poderiam atingir os 100 km/h. Seu impacto seria equivalente ao de pedras lançadas por catapultas.
Quando se lê os relatos frequentes na mídia dos estragos causados pelas tempestades e tornados ao redor do globo, não tem como não atribuí-los à ira da mãe Natureza. A multiplicação de indústrias poluentes desde os primórdios da era industrial, a contaminação dos mares por derramamentos de petróleo, e a febre atual de construção de data centers sedentos de recursos hídricos e energia vem finalmente cobrar de todos nós o seu preço. Mas será que estamos dispostos a pagá-lo?
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