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Se você se preocupa em saber quais histórias são verdadeiras e quais são ficção, lembre-se de que a história muda conforme aquele que a conta, pois todas elas sempre carregam algo de verdadeiro e muito da fantasia do escritor. Afinal, neste mundo das redes sociais, mesmo quando pretendemos estar contando a verdade sobre nós, redigimos uma ficção.

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A Decisão

Durante uma reunião de família que se passa em um fim de tarde idílico, Carol sofre com a desconfiança que provoca nos demais devido à sua personalidade singular. Ela então se dá conta de que precisa tomar uma atitude para mudar de vida.

 

Ilustração criada por Bing Image Creator

A visão do rio correndo manso em seu leito poderia manter Carol em transe por horas à fio. A monotonia da cena apenas perturbada pela passagem eventual de uma embarcação, quando se formam duas ondas lustrosas, que avançam impassíveis em direção às margens opostas, seguidas por um marulhar suave e uma esteira de espuma branca que envolve suavemente a vegetação ribeirinha, marcando o retorno da cena à normalidade. Após um tempo demasiado longo perdido naquela contemplação solitária, ela se dá conta de que deveria entrar e se juntar aos demais, ou eles começarão a tecer comentários. Dirige então um último olhar para o horizonte, contemplando o bailado lento dos feixes de luz dourada e empoeirada do sol poente sobre o estuário. Por onde andarão as cinzas de seu companheiro lançadas sem qualquer cerimônia nestas águas há exatamente um ano? 

“Não importa que fatos perturbem a rotina, a vida sempre retorna seu curso, indiferente. Como as águas de um rio. Então para que ficar se torturando?”, ela murmura, voltando sua atenção para o interior da casa, e decide afinal se juntar ao bate-papo animado da sala. Ela volta o olhar para o chão e atravessa a cozinha em um passo apressado. Mas quando se aproxima da porta da sala, é retida pelo braço. 

“Fica aqui com a gente”, diz sua tia que, com um movimento circular de mão, aponta para o grupo de mulheres reunidas na cozinha. “Aff”, murmura Carol, voltando os olhos rapidamente para o teto, enquanto se acomoda desanimada sobre um banquinho ao lado da pia. Sobre o colo ela estende um pano de prato e se põe a descascar as batatas para a salada de maionese, preparando seu espírito para a habitual enxurrada de reclamações sobre os homens da família e a troca de receitas. Mas sua mente logo divaga para longe dali. 

Inicialmente reflete sobre como responder ao convite que recebeu há quinze dias de uma universidade americana. Mas a questão é demasiado séria e ela se sente sem forças para tomar decisões desde que André faleceu. Ela então opta por assuntos mais triviais e se questiona se já não é hora de reformar o terraço do seu apartamento para poder reunir os amigos com mais conforto. Afinal de contas, uma hora dessas ela teria de retribuir os convites que recebe todos os fins de semana, ou acabaria sendo esquecida.

Carol estava assim perdida em devaneios, quando foi surpreendida por sua tia sacudindo seu braço e olhando para ela com uma cara de riso mal disfarçado. “O que você acha disso?”, ela pergunta. Mas Carol não tem a menor ideia do assunto que está sendo discutido. Descobre que caiu em uma armadilha quando se dá conta de que todas as mulheres olham para ela, atentas a qualquer deslize de sua parte. Sua fama no grupo não é boa. Todos a acham metida e já repararam que ela se chateia com as conversas da família. Por que afinal ela insiste em ser diferente de todo mundo? 

Mas hoje ela decididamente não está a fim de confusão.Enquanto se pergunta como sair daquela situação, ela repara que Elisabete acaricia distraída um conjunto de braceletes de ouro que ostenta no punho direito seja qual for a ocasião. Esse gesto a faz lembrar de que a cunhada havia sido convencida pelo marido a vender o bracelete predileto caso continuasse insistindo na troca do carro. “Ah coitada”, Carol diz com uma expressão consternada voltada para sua cunhada, “isso foi uma grande injustiça da parte dele!”. Temporariamente satisfeitas com a resposta, as demais voltam sua atenção para Elisabete, que agora mostra com indisfarçado orgulho o carro novo estacionado no pátio.

Mal acreditando na sorte que teve, Carol se esforça para conter o riso. Ao reparar que sua tia a observa e parece refletir sobre o que acabou de ocorrer, ela resolve se trancar por um momento no banheiro a fim de recuperar a compostura.

Ao abrir a porta do banheiro alguns minutos mais tarde, ela é surpreendida pelas gargalhadas dos homens reunidos na sala ao lado. Curiosa para descobrir do que eles estavam rindo, ela se aproxima do grupo, mas eles rapidamente suspendem a conversa e voltam os olhos na sua direção, aguardando pacientemente que ela retorne ao grupo das mulheres para continuarem o assunto de onde haviam parado.

Ela finalmente compreende a razão desta sensação incômoda que a vem perturbando desde que André morreu. Sem ele para servir de ponte com os demais, ela sente como se vagasse solitária pelo mundo, falando uma língua diferente dos outros, habitando uma realidade paralela. “Não sei por que eu insisto em viver assim. Deveria procurar pessoas com interesses semelhantes aos meus e que me valorizam. Mas é claro..." Ela acaba de se dar conta de que o convite que recebera recentemente é um presente dos céus, a solução perfeita para o seu dilema.  Sente que não é mais preciso perder tempo avaliando os prós e os contras: a decisão está tomada! Surpreendida por sua bravura e determinação, ela afinal solta o riso. 

A tia de Carol repara nela, detida a meio caminho entre a sala e a cozinha, e acompanha atentamente as variações de humor que afloram em seu rosto. Após alguns minutos observando a cena, ela se vira para sua filha  e comenta “Essa garota está ainda mais estranha hoje!”.  Ao se dar conta da situação, Carol decide interromper a conversa das mulheres sobre os planos de reforma da casa da praia. Meio surpresas, meio aborrecidas pela atitude desrespeitosa, elas aguardam silenciosamente que Carol se desculpe pela falta de jeito. Mas ela ignora os olhares frios que recebe e comunica simplesmente “Eu recebi um convite para trabalhar em um centro de pesquisa nos Estados Unidos e resolvi aceitar. Estou me mudando para lá no próximo mês”. 

Após um silêncio incômodo durante o qual ninguém manifesta reação, sua cunhada diz em alto e bom som “Ah, que bom”. No seu rosto, surge um sorriso que morre a maio caminho entre os cantos da boca e os olhos. Pouco a pouco as demais vão retomando a conversa anterior, como se nada tivesse acontecido. Carol se afasta do grupo à procura de sua bolsa, abre a porta da casa sem fazer alarde e caminha lentamente em direção ao carro. No horizonte, uma bola de fogo ardente se funde às águas do rio, enquanto isso, o ar fresco da noite invade o jardim, trazendo consigo a esperança de uma nova vida.

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Tags: vida em famíliaencontrar sua turmachoques de personalidades

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